É caracterizado por um Cemitério onde podemos encontrar uma pirâmide como o estilo Bóere assim como campas com datas que indicam aproximadamente o tempo em que o povo Bórere viveu na região da Humpata
Os Viajantes da Sede: A História Esquecida dos Bóeres no Sul de Angola
No coração do sul de Angola, para lá das paisagens deslumbrantes da Huíla, esconde-se uma história singular e pouco contada: a de uma comunidade de bóeres, descendentes de colonos europeus da África do Sul, que aqui procuraram refúgio e deixaram uma marca inesperada e duradoura. Para o viajante que procura mais do que apenas praias e quer mergulhar nas profundezas da história angolana, seguir os passos destes migrantes revela um capítulo fascinante das complexas interações que moldaram esta nação.
A "Jornada da Sede": Uma Migração Épica para Angola
Tudo começou no final do século XIX, com uma série de migrações conhecidas como o "Dorsland Trek" ou a "Jornada da Sede". Impulsionados por um profundo desejo de autonomia e fugindo à administração britânica na África do Sul, grupos de bóeres, um povo de origem holandesa, alemã e francesa com uma identidade forjada na terra e na fé calvinista, iniciaram uma viagem árdua em busca de uma nova pátria. A sua travessia pelo implacável deserto do Kalahari foi uma verdadeira odisseia, marcada pela perda de vidas e gado devido à falta de água e a doenças. Em 1879, os sobreviventes cruzaram o rio Cunene e chegaram finalmente a Angola. Após negociações com as autoridades coloniais portuguesas, estabeleceram-se no planalto da Huíla, fundando em 1881 a sua principal colónia na Humpata. Esta região, com as suas terras férteis, tornou-se o epicentro de uma comunidade que, embora procurando isolamento para preservar a sua cultura, acabaria por transformar a economia local.
O Legado do "Carro Bóer": Revolução nos Transportes e Comércio
Apesar de serem vistos com desconfiança pelas autoridades portuguesas, que os consideravam "ociosos" e resistentes à integração, os bóeres introduziram uma inovação que revolucionou o sul de Angola: o "carro bóer". Esta robusta carroça de madeira, puxada por bois, tornou-se o principal meio de transporte de mercadorias antes da chegada do comboio e dos camiões. Capaz de rasgar os seus próprios caminhos por terrenos difíceis, o carro bóer foi fundamental para abrir o interior do país. Os bóeres não só construíram e repararam estradas entre Moçâmedes, Benguela e o planalto, como também impulsionaram o lucrativo comércio da borracha e da cera, transportando produtos entre o litoral e as remotas terras do Bié e do Moxico. Ainda hoje, ao percorrer as zonas rurais do sul, é possível ver carroças de bois, um vestígio vivo deste legado, a transportar pessoas e colheitas para os mercados locais.
Relações Complexas e o Início do Fim
A vida em Angola não foi, contudo, a utopia que procuravam. A sua relação com a administração portuguesa foi marcada por atritos constantes sobre impostos, a língua e a educação. Os bóeres resistiam a assimilar-se, preferindo manter as suas próprias escolas e estruturas de liderança, o que gerava desconfiança mútua. A coexistência com as populações indígenas também foi, por vezes, conflituosa, marcada por disputas por terra e gado. Este isolamento cultural e a resistência à modernização, embora preservassem a sua identidade, acabaram por levar ao seu empobrecimento e a um sentimento de estagnação. A sensação de que "não há futuro para nós, aqui" começou a crescer, preparando o terreno para a sua partida.
Os Êxodos e os Vestígios de uma Comunidade Perdida
O declínio da presença bóer materializou-se em dois grandes êxodos. O primeiro, em 1928, viu cerca de 80% da comunidade ser "repatriada" para o Sudoeste Africano (atual Namíbia), numa operação organizada pelo governo da África do Sul. As razões foram uma mistura de insatisfação com as condições em Angola e fatores políticos externos. O golpe final chegou em 1958. Com os "ventos da mudança" a soprarem por toda a África e o receio da iminente guerra pela independência em Angola, a maioria dos bôeres remanescentes decidiu partir. A comunidade, já envelhecida e reduzida, deixou de existir como uma entidade coesa, e os últimos indivíduos partiram em 1975, com a independência do país.
Hoje, para o visitante atento, a passagem dos bóeres por Angola não foi totalmente apagada. O antigo cemitério bóer na Humpata é um testemunho silencioso e comovente da sua presença. Nomes de bois de origem africânder ainda usados na região e os canais de irrigação que construíram na Serra da Chela são outras marcas da sua passagem. A sua história é hoje uma memória da fascinante e complexa tapeçaria de culturas e migrações que fazem de Angola um destino tão diverso e rico.
Por: Artur Alves